“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem fatos, a minha história sem vida. São as minhas confissões e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.”
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego
Com a precisão que talvez só um poeta pudesse alcançar, Fernando Pessoa formulou algo que pode servir como uma posição singela e, ainda assim, decisiva diante da vida: uma vida que não requeira fatos, que não se organize pela exigência de nexo.
A necessidade de fatos é, talvez, um dos pesos mais insistentes que carregamos. A exigência de que tudo faça sentido, de que cada acontecimento se justifique, de que nada possa ser de outro modo.
Um trabalho se impõe quando essa necessidade começa a ceder. Quando as coisas da vida deixam de ser necessárias para tornarem-se contingentes, podendo ser assim, mas também podendo não ser.
É a partir desse deslocamento que se pode pensar um processo de análise. Não como a promessa de uma vida sem sofrimento, mas como a possibilidade de que o sofrimento não mais se imponha pela repetição e passe a ocupar um lugar banal no cotidiano, sem comando, sem destino, sem exigência de sentido.
Um convite a uma análise talvez seja, para além de construir belas histórias, notar que não é necessário que elas sejam belas para que se possa viver uma vida possível.